Casa do arquiteto. Sérgio Bernardes

Texto extraído do livro

BRUAND, Yves. Arquitetura Contemporânea no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 2003. P. 289-292

Quando Sérgio Bernardes, que tinha quarenta anos na época, pensou, em 1960, em instalar seu escritório de arquitetura e sua casa numa ponta rochosa da Avenida Niemeyer, em plena costa selvagem da metrópole carioca, sua reputação já estava solidamente estabelecida por causa das várias casas que construiu no Rio e em Petrópolis, dos pavilhões de exposição  e de alguns outros projetos de envergadura amplamente divulgados embora não realizados.

O estilo desses trabalhos era bastante heterogêneo: a freqüente retomada das formas inventadas por Niemeyer estava lado a lado com pesquisas de geometria pura mais pessoais, sem que se pudesse notar uma evolução cronológica precisa; a preferência absoluta manifestada pelas técnicas modernas não levava a nenhuma especialização e o arquiteto passava, sem constrangimento, do concreto armado, aos vários tipos de estrutura metálica, numa série de tentativas bastante ecléticas; os materiais tradicionais surgiram freqüentemente, junto com materiais mais recentes, como meio de acabamento e estes ou aqueles, conforme o caso, eram deixados aparentes, no estado bruto, ou eram disfarçados com revestimentos. Assim, os traços comuns ao conjunto resumiam-se numa nítida paixão pelas experiências de todo tipo e uma vontade marcante de fazer uma construção econômica. Essa falta de preconceitos teóricos e de uma linha bem definida, fruto de uma abertura de espírito e uma disponibilidade tão completas que às vezes beiravam a utopia e a dispersão, sempre deixaram Sérgio Bernardes acessível às influências externas.

Como conseqüência, não é de espantar que a vinda ao Brasil (um pouco barulhenta) do principal apóstolo da arquitetura orgânica, Bruno Zevi, não o tenha deixado indiferente. Achamos, com efeito, que não é simples acaso cronológico o fato de que a casa de Sérgio Bernardes tenha sido concebida apenas alguns meses depois da rápida estadia de Zevi em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro, por ocasião do Congresso Internacional Extraordinário de Críticos de Arte (setembro de 1959). O arquiteto e professor italiano, que se fez notar pela acerbidade de seus ataques contra a nova capital do país e contra as realizações de que seus hospedeiros mais se gabavam, desencadeou nos meios especializados locais uma verdadeira tempestade polêmica; essa atitude pouco cortês e muito parcial feriu vários interlocutores, não por sua louvável franqueza, mas pela falta total de compreensão com que foi manifestada.

Alguns jovens profissionais brasileiros, desejando sair dos caminhos batidos, foram sensibilizados pela vigorosa convicção desse brilhante adversário e seduzidos por algumas das idéias emitidas; Sérgio Bernardes, a quem seu estado de espírito tornava particularmente receptivo a toda novidade embora não o predispusesse a tornar-se um discípulo fiel fosse lá do que fosse, não era pessoa que deixasse escapar a ocasião de tentar um passo numa direção até então ignorada: ora, nenhum programa prestava-se melhor a esse gênero do que sua própria residência e o local extraordinário, com uma nota romântica, onde pretendia estabelecer-se.

Afirmar que a casa em questão é um modelo de arquitetura orgânica ou que ela resulta de uma ruptura brusca na obra de seu autor seria um exagero inegável e uma deformação da verdade. O exame das plantas do edifício deixa aparecer uma vontade absoluta de fazer geometria pura baseada no triunfo do ângulo reto , que se inscreve muito bem na linha racionalista; o mesmo se aplica às preocupações funcionais que desempenharam um papel determinante: orientação ditada pela necessidade de proteção contra os ventos fortes que vêm do sul, lugar primordial atribuído aos problemas de arejamento e luta contra a umidade, escolha dos materiais e das soluções arquitetônicas em razão dessas considerações e de uma economia estrita, nítida preferência pela construção industrial baseada no emprego de elementos padronizados com a adoção de um módulo estrito (l,20m) comandando toda a composição.

Nessa composição podem ser encontrados os traços principais que sempre caracterizaram o estilo de Sérgio Bernardes, apesar da diversidade de suas criações; sob esse aspecto, então, existe uma continuidade evidente e não uma modificação de tendência. A mudança surge no estabelecimento de relações com a natureza e numa vontade explícita de explorar ao máximo a paisagem, tendo em vista a satisfação psicológica do morador. Não se rode falar de uma confusão completa da construção dentro da moldura excepcional para a qual foi imaginada. De fato, a casa divide-se em duas partes bem distintas: o andar de cima, no mesmo nível da plataforma de acesso colocada na última plataforma natural do esporão rochoso, e os níveis inferiores, presos aos flancos desse esporão e parecendo mais uma infra-estrutura do que o próprio corpo da obra.

O primeiro nível, dedicado às dependências de estar, é assim posto em relevo e é ressaltada francamente sua arquitetura ortogonal de concreto e vidro, com telhado plano e tripartido em fibra-cimento. Em compensação, o aspecto das partes de baixo inspira-se em princípios bem diferentes: as paredes grossas do plano médio, que abriga os dormitórios, tendem a integrar-se na colina e a fazer-se passar por um simples rebaixamento do terraço que constitui a base do elemento nobre; o uso da pedra talhada de modo grosseiro, retomando as tonalidades da franja de rochas ao pé da enseada e retomando a inclinação no sentido do declive, facilitam essa assimilação, que não chega a ser perturbada pela existência de uma piscina isolada; de fato, um rústico vigamento de madeira em balanço oculta essa piscina, prolongando sua beirada num vasto solário. Portanto, Sérgio Bernardes fez uma mistura das concepções racionalista e orgânica quanto à implantação do edifício e seus relacionamentos sua habilidade técnica por meio de um volume geométrico e de linhas claramente indicadas que se destacam do contexto circundante, mas ao mesmo tempo ele se esforçou para atenuar o contraste, fazendo uma transição onde é a natureza que parece estar impondo suas leis à criação humanas. Mas não haverá uma certa falta de unidade nessa justaposição, ou melhor, nessa superposição audaciosa de tendências modernas opostas, combinadas com uma nota de simbolismo espiritual e um vestígio do passado (no aspecto proposital de fortaleza que foi dado ao centro da casa)? O único traço de união é uma modéstia formal e material presente em todas as partes, aliás, fruto de uma atitude proposital do arquiteto, mais do que de um reflexo de seu caráter íntimo.

As mesmas constatações podem ser feitas no interior. A casa toda foi concebida em função do panorama (a entrada da Baía da Guanabara) que é oferecido com exclusividade aos felizes possuidores. Sérgio Bernardes não hesitou em tratá-lo como se fosse uma série de quadros montados numa moldura impecável, formada pela ossatura das salas de estar ou pelas janelas quadradas dos quartos; ele levou esse ponto de vista em consideração quando fez os cálculos da colocação da casa e por vezes acrescentou, com finalidades estéticas, um elemento não indispensável, como a grande viga horizontal de cimento armado que corta a varanda na frente da piscina: a razão de ser desta completar a moldura retangular necessária para a melhor apresentação da visão reservada aos hóspedes do pequeno salão do andar do meio.

Mas a semelhança entre os dois corpos da obra, também sensível no emprego preferencial de materiais brutos em ambos os casos, termina aí. Não é exagero falar de uma ruptura violenta e proposital entre a parte alta do edifício e sua base, onde se abrigam as dependências mais íntimas: leveza, transparência, continuidade exterior-interior, tônica colocada na estrutura, jogo acentuado de cores40 no caso da primeira, aspecto maciço e Fechado, intimismo austero, triunfo da parede, tons neutros  dominantes no segundo caso. Foi preciso muita habilidade para conseguir encontrar uma transição segura entre os níveis principais. graças ao tratamento misto dado ao conjunto vestíbulo superior-escada-saleta inferior.

O ideal de Sérgio Bernardes foi realizar uma grande síntese, ao mesmo tempo voltada para o passado e para o futuro, sempre levando em conta as  possibilidades presentes. Ele procurou materiais simples suscetíveis de envelhecer bem, sem alterações, aproveitando as lições extraídas dos edifícios que conseguiram resistir aos estragos do tempo; isso não impediu que se preocupasse, antes e acima de tudo, com a atualidade e que fizesse uma opção quanto ao futuro, escolhendo decididamente os produtos industriais pré-fabricados, mas sem renunciar a uma criação mais pessoal que nunca.

No plano plástico, ele quis unir, numa mesma composição, a tradição luso-brasileira e as tendências mais representativas da arquitetura contemporânea. Aquela é lembrada discretamente pelo telhado muito saliente e pelo cruzamento das vigas aparentes que o sustentam, bem como pelo aspecto de fortaleza que é dado à parte inferior do edifício; ela se torna patente na mobília colonial que guarnece toda a casa, numa prova evidente da harmonia que pode ser estabelecida entre a construção moderna e autênticas obras-primas da arte antiga.

Quanto às tendências contemporâneas, a pureza formal e os princípios racionalistas continuam sendo traços essenciais, mas não excluem uma inclinação precisa para uma aproximação com a natureza ou mesmo alguns traços de sentimento romântico, que parecem vir diretamente do movimento orgânico.

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